Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

snacksoverthecounter

Conta-me as tuas histórias. Fica para ouvir as minhas

snacksoverthecounter

Conta-me as tuas histórias. Fica para ouvir as minhas

10
Out18

Escrevi um bocadinho de história

Mariana já não sabia mais de si. Era a imagem do que os outros queriam. Passava os dias no escritório a fazer contas quando a sua grande paixão eram as letras.
Hoje, no apartamento decorado por um qualquer decorador famoso, pensava naquilo que a levara a escolher a vida que não gostava.
Os pais não a queriam nessa má vida das letras e das pessoas com opinião. Achavam que ela devia garantir o seu futuro com uma casa, um carro e um casamento no cartório. A avó achava as letras uma perda de tempo e tinha sonhado muita coisa para a neta.
Infelizmente, não chegou a ver muita coisa. Deixou-se ir, precocemente com a doença que tudo leva.
Ninguém estava do lado dela. Nem mesmo o destino. Os números não a satisfaziam mas as horas que dedicava ao trabalho tinham-na feito chefe de departamento. A responsabilidade assustava-a e ela achava toda a gente ali uma seca. Ninguém tinha ambições e ninguém era pelas emoções.
Todos queriam o mesmo, falavam do mesmo e até andavam e respiravam da mesma forma.
Tantas vezes ela havia-se questionado se aquelas pessoas teriam saído todas do mesmo saco embrionário.
Não tinha vontade nenhuma de trabalhar ali nem naquele ritmo.
Valiam-lhe os momentos a sós em casa, a escrever.
Tinha ali papéis com histórias incríveis e bocados de raiva também.
Tinha nos cadernos uma espécie de diário onde se liam a momentos de dor infinita de quem é o que não quer ser.
Adormeceu sobre um dos cadernos onde escrevera “Não sei que caminho tomar. O da felicidade ou do inferno.”
Nem ela sabia bem o que aquilo queria dizer, mas o dia seguinte amanheceu frio e escuro.
Apanhou um táxi para o escritório e chegou a pingar por todos os lados. As pessoas eram sempre simpáticas mas ela sabia porquê.
Vários "bons dias" depois, chegou ao seu gabinete.
Sentou-se e respirou fundo. Mais um dia de tragédia estava prestes a começar. Deitou a cabeça sobre os braços cruzados em cima da secretária.
“Bom dia! Pensei que não viesse por causa da chuva. Realmente, quando chove, a vida parece que adormece.”
Levantou a cabeça num ápice.
Mas quem estava ali? Quem se tinha atrevido a entrar no seu gabinete antes dela?

11 comentários

Comentar post